GRANDES CINEASTAS

Abaixo uma série de biografias de grandes diretores do cinema mundial disponibilizados por ordem alfabética: 


AKIRA KUROSAWA (1910 – 1998)

Nascido em Tóquio-Japão no ano 13 da era Meiji (1910), Akira (“O Luminoso”, em japonês) sempre buscou a diferença em sua arte e em sua vida. Descendente de uma família de samurais, passou a vida confeccionando sonhos em celulóide. Um verdadeiro imperador reverenciado no mundo inteiro e desprezado por seu próprio povo. Em sua infância, apesar da descendência de Samurais, expressava tal fragilidade a ponto de chegar a ser chamado pelo humilhante apelido de Kompeito-san, uma alusão aos confeitos que se derretiam. Aquele menino sensível se desmanchava em lágrimas diante da rigidez do sistema educacional japonês. Contradições de um espírito com inequívoca vocação para o conflito. Um cineasta com fama de rígido, mas de cujas mãos surgiram obras primas delicadas e de rara beleza. Um diretor de cenas complexas, mas incapaz de dirigir um automóvel. Tentou a carreira de artista plástico, mas foi reprovado na Escola de Belas-Artes. Mais tarde, depois do que classificou como sua “fase rebelde”, integrou os estúdios cinematográficos Toho, em 1936. O início foi como roteirista e logo passou a assistente de direção de Kajirô Yamamoto – que ele carinhosamente chamava de Yama-san. Seu primeiro filme foi Sugata Sanshiro (A Lenda do Judô), de 1943. Sucesso. Cidadão do mundo, Kurosawa bebeu na arte e na cultura ocidentais, sem maiores temores. “Não importa para onde eu vá, e embora não fale outra língua, nenhum lugar é estranho o suficiente para mim. Sinto que a Terra é meu lar”, disse em seu “Relato Autobiográfico” (publicado no Brasil pela editora estação Liberdade). Suas incursões foram além da música de Beethoven, Haydn e Schubert, que usou em trilhas sonoras de seus filmes. Apaixonado por Shakespeare, filmou Ran e Trono Machado de Sangue, respectivamente adaptações de Rei Lear e Macbeth; além de O Idiota, inspirado da obra de Dostoiévsky, e Ralé, adaptado na obra de Gorki. Transcendeu a gêneros, períodos e nacionalidades, sem jamais relegar a segundo plano a sua própria cultura, aquele peculiar jeito nipônico, manifestado na movimentação dos atores, nas caracterizações de personagens de teatro Nô. Mas nada se compara a seu amor pela personalidade controversa e pela obra genial de Vincent Van Gogh. O episódio “Os Corvos”, do filme Sonhos, é uma amostra de um desejo manifesto que Kurosawa deixou irrealizado: filmar a biografia do pintor holandês. O ocidente já o reconhecia como mestre e mago. Era o imperador do cinema japonês, mas o Japão insistia em não compreendê-lo. Acirravam-se as acusações de ser ocidental demais e os financiamentos para novos filmes tornavam-se cada vez mais difíceis. “Havia sempre um anjo em minha vida”, costumava dizer, referindo-se à sorte que dizia acompanhá-lo. Em 22 de dezembro de 1971, ano 46 da era Showa, o anjo que o protegia perdeu espaço para o desespero e Kurosawa tentou o suicídio cortando os pulsos, deprimido com a incompreensão de seu próprio povo e as críticas que recebia. No ano seguinte o socorro veio da ex-União Soviética, onde filmou o aplaudido Dersu Uzala. Sobre essa experiência, disse Kurosawa: “Um desses salmões, não vendo outro caminho, empreendeu uma longa jornada para subir um rio soviético e dar à luz algum caviar. Assim surgiu meu filme Dersu Uzala em 1975. Nem eu penso que seja essa uma coisa ruim. Mas o mais natural, para um salmão japonês, é pôr seus ovos em um rio japonês” - Referia-se ao fato de que sempre se considerou um “salmão, que jamais esquece o lugar que nasce”. Sua vida pontuou seus filmes. Foi autobiográfico sempre. Em muitos momentos, a personalidade do diretor mergulhou no mundo de celulóide, renascendo nas almas dos personagens. E em 1990, ano 2 da era Heisei, recebe o Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O mais tocante e belo em toda a obra de Kurosawa está justamente na grandeza de sentimentos. Seus últimos filmes, Sonhos, Rapsódia em Agosto e Madadayo são pinceladas intimistas sobre a velhice, a morte, o tempo. Perguntado sobre o que faria se tivesse o poder de influenciar a sociedade e mudá-la, ele disse simplesmente: “Daria o melhor de mim para aproveitar minhas habilidades como artista. Eu sou feliz porque tenho a chance de me expressar”. Kurosawa sempre teve uma sensível visão do mundo e de sua natureza, para ele o homem deve muito ao planeta por tê-lo maltratado tanto e a arte é uma das formas de pagar essa dívida. PRINCIPAIS FILMES: Sugata Sanshiro, 1943 - Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre, 1945 - O Anjo Embriagado, 1948 - O Escândalo, 1950 - Rashomon, 1950 - Hakuchi-O Idiota, 1951 - Viver, 1952 - Os Sete Samurais, 1954 - Trono Manchado de Sangue, 1957 - Yojimbo-O Guarda-Costas, 1961 - Céu e Inferno, 1963 - Dodeskaden-O Caminho da Vida, 1970 - Dersu Uzala, 1975 - Kagemusha-A Sombra do Samurai, 1980 - Ran, 1985 - Sonhos, 1990 - Rapsódia em Agosto, 1991 - Madadayo, 1993.



ANDREI TARKOVSKY (1932-1986)

Considerado persona non grata pelo governo da ex-União Soviética, desde o início de carreira, o cineasta não abria mão de suas obsessões. Quando fez Solaris, sobre um planeta oceânico dotado de inteligência, capaz de fazer os astronautas de uma expedição materializarem os sonhos mais ocultos, recebeu elogios de Akira Kurosawa, que considerou o filme assustador. Mais tarde, o mesmo tema do confronto entre o conhecimento e o mistério da existência é retomado em Stalker. Tarkovski, porém, estava acima dos gêneros. Filosofava pela arte, para ele o único meio de crescimento espiritual. “O cinema é uma arte infeliz porque depende de dinheiro. Não só porque um filme é sempre muito caro, mas pelo fato de ser visto como algo comercial, como cigarro”, dizia. O que não impediu que sua curta obra se revelasse de grande intensidade. Nascido em Moscou, filho do célebre poeta Arseni Tarkovski, Andrei estudou música, pintura e a língua árabe na infância e juventude. Trabalhou em prospecção geológica na Sibéria e só aos 24 anos começou a se interessar por cinema. Poeta, Filósofo, Cineasta, Tarkovski tinha idéias bastante claras sobre os segredos da sua arte. Por exemplo, ele dividia os cineastas em dois grupos: aqueles que procuram reproduzir o mundo à sua volta e aqueles que, numa direção oposta, criam seu próprio mundo particular. “Geralmente, estes são os poetas”, dizia, alinhando na categoria, entre outros, os nomes de Ingmar Bergman, Luis Buñuel e Akira Kurosawa. Autor de oito filmes personalíssimos, Tarkovski se incluía no grupo dos poetas da imagem. Nas suas histórias desenvolvidas à deriva, cenas impregnadas de um sentimento secreto se alternam como verdadeiras epifanias. São amantes que levitam ou se lançam ao solo numa desesperada tentativa de se fundirem à terra; casas que incendeiam; chuvas que lavam a alma de personagens emudecidos diante do mistério da natureza e da existência. Nos filmes de Tarkovski, algumas perguntas parecem tão importantes quanto suas respostas. Sua obra se apresenta como um meio de assimilação do mundo, um instrumento que busca compreendê-lo. A expressão artística seria uma experiência subjetiva, através da qual o homem procura apreender a realidade. Para Tarkovski, uma das grandes particularidades da arte, é sua intenção de persuadir as pessoas não através de argumentos racionais, mas sim a partir do impacto emocional. A arte tem de ser sentida, pois o artista a impregnou como uma energia que transcende a razão de um diálogo meramente jornalístico. Desta forma um espírito de comunhão entre o artista e o público é essencial, pois o criador não busca a comunicação através do científico. Filmes são feitos para que os homens tentem se comunicar, partilhar informações e assimilar experiências. Seus dois últimos filmes foram feitos no exílio: “Nostalgia”, na Itália em 1983 e “O Sacrifício” na Suécia em 1986. Tarkovski rodou este último com câncer e morreu logo depois de finalizá-lo. Quando instado a explicar o sentido de seus filmes, ele respondia com a seguinte metáfora: "Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender..." FILMOGRAFIA: A infância de Ivan (1961), Andrei Rublev (1966), Solaris (1972), O Espelho (1974), Stalker (1979), Nostalgia (1983) e O Sacrifício (1986).



DAVID LYNCH

Uma pessoa verdadeiramente multifacetária. Ele divide seu tempo entre várias atividades artísticas como o cinema, literatura, pintura, escultura, cartoons, fotografia, produção televisiva e composição musical. Conjugando de forma inteligente as exigências do universo cultural com tendências artísticas experimentais, Lynch tornou-se um dos mais respeitados cineastas da nossa era, avançando com uma visão de mundo caracterizada pelo seu original obscurantismo e pela utilização de um sentido cômico tão bizarro quanto amargo que, somados, formam um conjunto de estranha beleza. Conseguiu a fama e o respeito do público e da crítica, contribuindo para uma alteração profunda dos gostos e ideologias do cinema norte-americano. Direção de arte impecável, sonoridade intensa, elementos que se repetem a cada filme, e esquisitices sem nexo postas ao acaso na narrativa são elementos do universo lyncheniano. Porém, suas obras são bem mais profundas do que aparentam e lançam, com propriedade, foco no lado escuro da alma humana. O que temos em Lynch é uma constante busca pela 'imagem diferente'; uma imagem arrebatadora e inesquecível, cuidadosamente trabalhada, e que, por vezes (mas não sempre) utiliza-se do surreal e do obscuro para causar impacto, e fazer-nos entrar no clima. Clima: essa sim é uma boa palavra para definir a obra do diretor. Os monstros “lynchenianos” não são propriamente reais, e sim manifestações do real. Eles são uma forma quase metafórica de nos mostrar a realidade, aquilo que não queremos enxergar. É como aquele medo de infância de olharmos embaixo da cama ou dentro do armário e virmos lá um monstro; Lynch nos diz que sim, eles estarão lá assim que ligarmos as luzes. Lynch nasceu em 20 de Janeiro de 1946 em Missoula, uma pequena cidade do estado americano de Montana. Sua juventude passada na Filadélfia foi um eterno tormento para ele, onde se viu perdendo o controle de sua vida, engravidando sua namorada e se vendo obrigado a casar com ela. Todo esse pesadelo claustrofóbico e sentimento de ter perdido o tato com o real, juntamente com a assustadora paisagem industrial da Pensilvânia, viria a se transformar no primeiro longa-metragem do diretor, Eraserhead (1976). Diz a lenda que ele chegou a trabalhar de encanador para cobrir as despesas desse seu primeiro longa. Destaques: 2006 - Inland empire, 2001 - Cidade dos sonhos, 1999 - A história real, 1997 - A estrada perdida, 1990 - Coração selvagem, 1990 - Twin Peaks, 1986 - Veludo azul, 1980 - O homem-elefante, 1976 – Eraserhead.



FEDERICO FELLINI (1920-1993)

Fellini nasceu em 1920, em Rimini, pequena cidade litorânea da Itália. Começou como jornalista em Florença, na revista de humor "Marc Aurelio", demonstrando ser excelente desenhista e caricaturista. Logo depois, passou a escrever pequenos roteiros e piadas para comediantes. Seus mestres no cinema foram Rossellini, para quem trabalhou em vários projetos (inclusive "Roma, cidade aberta" e "Paisà"), adquirindo conhecimento da mecânica da produção audiovisual, e Lattuada, com quem co-dirigiu seu primeiro filme. A inspiração neo-realista é evidente na primeira fase de suas obras, com muitos personagens populares, de fácil identificação e grande carga emocional. Pouco a pouco, contudo, a imaginação de Fellini foi superando seu compromisso com a realidade. Em "Oito e meio" já estão presentes o sonho, a fantasia e o grotesco, que formariam a matéria-prima de sua carreira. Fellini escrevia roteiros, mas sempre a contragosto. Dizia que era uma pena transformar em palavras o que, na verdade, deveria ser transportado diretamente da sua imaginação para o filme. Gostava de improvisar, de trabalhar com não-atores e de não planejar muito sistematicamente sua rotina de trabalho. Sabia cercar-se de outros grandes talentos, que enriqueciam os filmes e davam um suporte seguro para suas "pirações": Giulietta Masina (atriz), Marcello Mastroianni (ator), Nino Rotta (músico), Tonino Guerra (roteirista). Apesar de, em alguns filmes (principalmente em sua obra-prima "Amarcord" e no feroz "Ensaio de Orquestra") abordar temas políticos, Fellini não se sentia à vontade com cobranças ideológicas: "Minha natureza não é política; e o discurso político me confunde na maioria das vezes. Não o compreendo. Mas confesso isso como uma fraqueza, como uma de minhas carências." Poucos diretores de cinema conseguiram marcar tão claramente seu estilo, a ponto de virar adjetivo. Dizer que tal filme ou tal personagem é "felliniano" significa identificá-lo com a estética ao mesmo tempo barroca e popular de seus trabalhos das décadas de 60 e 70, em que o exagero e a predileção pelo inusitado conduzem, na verdade, a uma reflexão séria - e muitas vezes cruel - sobre o cotidiano de seres humanos frágeis e anônimos. Em seus melhores filmes, como "Os boas vidas", "Julieta dos espíritos", "A doce vida", "Amarcord" e "La nave va", Fellini demonstra que o cinema pode ser absolutamente autoral sem perder sua universalidade. DESTAQUES: Os boas vidas (1953), As noites de Cabíria (1957), A doce vida (1960), Oito e meio (1963), Julieta dos espíritos (1965), Fellini-Satyricon (1969), Amarcord (1973), Ensaio de orquestra (1979), A cidade das mulheres (1980), E la nave va" (1983), Ginger e Fred (1985), Entrevista (1987), A Voz da Lua (1990).



FRANÇOIS TRUFFAUT (1932-1984)

Nasceu em Paris, no dia 6 de Fevereiro de 1932 e faleceu, aos 52 anos, em 21 de Outubro de 1984, na cidade de Neuilly-sur-Seine, França, vítima de um tumor cerebral. Menino problema, cinéfilo radical, crítico de cinema militante e, aos 27 anos, diretor consagrado no Festival de Cannes com seu primeiro longa “Os Incompreendidos” (Les 400 Coups, 1959), François Truffaut deu aos seus filmes muito do que vivia na própria vida. Os Incompreendidos era claramente autobiográfico, e encontrou ali uma representação humana dele mesmo vivida pelo ator Jean Pierre Léaud, que, ao longo de seis filmes, deu continuidade ao mesmo personagem, Antoine Doinel, misto perfeito de Truffaut e Leaud. Como crítico e membro fundador da revista Cahiers du Cinema, questionou com fúria juvenil o cinema francês vigente na época, abrindo espaço para a "Nouvelle Vague” que aconteceu principalmente com ele mesmo, Jean Luc Godard, Eric Rhomer, Alain Resnais e Claude Chabrol. O movimento rompia com o sistema tradicional implantado pela industria cinematográfica e defendia a produção de filmes autorais, intimistas e de baixo orçamento, com a idéia de que o diretor é o principal criador de um filme e deve ter total liberdade para concebê-lo. Já cineasta estabelecido nos anos 60, entrevistou exaustivamente seu ídolo Alfred Hitchcock, numa época em que o tempo ainda não havia dado o devido respeito ao mestre inglês. Esse material virou o livro essencial Hitchcock/Truffaut - Entrevistas, re-editado recentemente no Brasil. Truffaut, que filmou as crianças, as mulheres e as relações amorosas como ninguém mais, deixou uma obra marcante com pouco mais de 20 longas consagrados que tornaram-se legado para novas gerações de cinéfilos e cineastas. DESTAQUES: Os Incompreendidos (1959), Jules e Jim (1962), Fahrenheit 451 (1966), Garoto Selvagem (1969), A Noite Americana (1973), A História de Adèle H., A (1975), O Quarto Verde (1978), A Mulher do Lado (1981).



GLAUBER ROCHA (1939-1981)

Cineasta, revolucionário, contestador, baiano e nômade. Em 1964 Deus e o Diabo na Terra do Sol explode nas telas como uma revelação. Glauber parte da convulsão e violência da terra sertaneja para chegar a rebeldia em estado puro. O Filme é aclamado no mundo inteiro e com os seguintes Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, Glauber entra para o grupo dos grandes cineastas autorais de seu tempo, é colocado ao lado de Bergmam e Godard. ncompreendido no Brasil militarista infestado por prisões e torturas, parte para o auto exílio. Um quebra-cabeças biográfico e geográfico, com dezenas de viagens, mudanças de endereço, de países, de mulheres, de amigos. Um périplo romanesco, um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel, apartamentos provisórios dos amigos, produtores ou mulheres. Suas cartas chegam de Paris, Londres, Nova York, Barcelona, Santiago do Chile, Munich, Roma, Moscou, Havana. Fala de um “sentimento do mundo” exacerbado por esse nomadismo. Suas cartas tornam-se relatórios minuciosos da sua vida. Aos poucos vai assumindo uma máscara trágica: “Eu sou um apocalíptico que morrerei cedo (...). As vezes sinto-me louco e absolutamente feliz dentro de uma infinita solidão “, diz numa carta de junho de 1973, de Paris. Nesse exílio, Glauber realizou seus filmes mais "impopulares" e até hoje pouco exibidos no Brasil: O Leão de Sete Cabeças,- rodado na áfrica e Cabeças Cortadas, na Espanha. A volta de Glauber ao Brasil se dá num clima de esgotamento e descrença. Em carta de Los Angeles, de junho de 1976, para o amigo Cacá Diegues, se expressa assim: “Estou cansado desta odisséia... por que estou nesta situação? o que é que há comigo? Tenho planos de filmar aqui, but aqui se pode ganhar facilmente muito dinheiro, but não dá pé... é deserto... é triste... o mundo todo triste... a China morta... Rússia morta... Europa morta... Ásia morta... África pré-histórica... América Latina subdesenvolvida... ah, a única solução é fundar no Brasil um Estado Novo com Cinema Novo... uf, ah.” De volta ao Brasil, Glauber ocupa simultaneamente todas as páginas dos cadernos culturais dos principais jornais e revistas do Rio, São Paulo, Bahia, Brasília. Seus artigos, entrevistas, rompantes provocam debates apaixonados. Porém Glauber não consegue financiamentos para seus projetos. Em 1977 outro escândalo. Glauber Invade o velório do pintor modernista Di Cavalcanti e narra o enterro como se fosse uma partida de futebol. Protestos e a interdição do filme pela filha do pintor, Elizabeth Cavalcanti que alega que Glauber teria desrespeitado a memória do pai, invadindo o velório de Di no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro com sua equipe, usando na trilha sonora do filme marchinhas carnavalescas sobre as imagens do cadáver do pintor. Até hoje o filme, que ganharia prêmio especial do júri em Cannes, em 77, está proibido judicialmente no Brasil. A década de 80 começa cheia de impasses. A realização de seu último filme, o emblemático A Idade da Terra e sua rejeição no Festival de Veneza e no Brasil, a morte do pai, Adamastor, além das incontáveis polêmicas, intervenções, entrevistas e artigos de Glauber na imprensa. Em 1981 Glauber viaja para Paris e depois Sintra, em Portugal, onde, depois de um curto período, adoece gravemente e retorna ao Brasil para se tratar. Não resiste e morre. Até hoje não se sabe ao certo de quê. Seu enterro foi um grande acontecimento. “é preciso fechar essa miserável década”, dizia em 1979. Sua morte foi carnavalizada, como fez no enterro de Di Cavalcanti. O velório no Parque Lage, cenário de Terra em Transe, fechou uma era cultural no Brasil, provocando o transe, a ira, o choro, os últimos discursos inflamados de agosto, as últimas brigas e acusações, as últimas polêmicas culturais. “Para ser um verdadeiro artista, não basta ter talento, é preciso ter coragem”. PRINCIPAIS FILMES: Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), O Dragão da maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), O Leão de Sete Cabeças (Der Leone Have Sept Cabeças) (1970), Cabeças Cortadas (Cabezas Cortadas) (1970), Câncer (1972), História do Brasil (1974), DI - curta-metragem (1977), A Idade da Terra (1981).



INGMAR BERGMAN (1918-2007)

Bergman foi a figura mais destacada do cinema escandinavo. Ultrapassou as fronteiras da Suécia e atingiu a universalidade abordando temas intrínsecos à existência humana. Filho de um pastor protestante, Ernest Ingmar Bergman teve formação luterana e descobriu o teatro quando era estudante. Na Universidade de Estocolmo, estudou literatura e historia da arte antes de trabalhar, como ajudante de produção, na ópera Real de Estocolmo. Em 1943, pela montagem de sua obra "A morte de Gaspar", foi contratado pelo departamento de roteiros. De 1944 a 1952, Bergman foi diretor artístico do Teatro Municipal de Helsingborg, período em que dirigiu seu primeiro filme "Kris" (1946) e uma serie de adaptações, em que já apareciam suas preocupações existenciais. Em seguida fez "Jogos de Verão" (1950) e "Um Verão com Mônica" (1952). Seus filmes eram estrelados por seus atores favoritos: Max Von Sydow, Liv Ullmann, Harriet Anderson, Gunnar Bjornstrand e Bibi Anderson. O amplo conjunto de sua obra engloba desde a comédia leve ao drama psicológico ou filosófico mais profundo. Em suas comédias, como "Uma Lição de Amor"(1954) ou "O Olho do Diabo" (1960), destaca-se o tratamento lírico de seu conteúdo sexual. Entre suas obras dramáticas, "O Sétimo Selo" (1956) é uma trama medieval sobre a relação do homem com Deus e a morte. Além de premiado em Cannes, o filme - uma obra-prima - deu a Bergman a notoriedade internacional. No mesmo estilo denso e metafísico, sua obra engloba "Morangos Silvestres" (1957) e "A Fonte da Donzela" (1959). Nos anos 60, seus filmes foram ficando cada vez mais profundos, com imagens psicológicas criadas a partir dos próprios sentimentos e da visão do diretor, caso de "Persona" (66), "O Silêncio" (1963) e "A Hora do Lobo" (1968). Ao contrário dos filmes americanos da época, que faziam tudo para chamar a atenção, Bergman preferia os tons suaves, a sutileza dos movimentos, o tempo da reflexão. Os recursos técnicos que utilizava eram os flashbacks e as seqüências de sonhos e visões. Seus filmes da década de 70 não foram tão elaborados, mas nem por isso são menos geniais. São os casos de "Gritos e Sussurros" (1972), "Flauta Mágica" (1974), "O Ovo da Serpente"(1977) e "Sonata de Outono" (1978), com a atriz Ingrid Bergman. Em 1983, ganhou pela terceira vez o Oscar de melhor filme estrangeiro por "Fanny e Alexander", uma recriação de sua própria infância. Foi sua despedida como diretor do cinema. Depois, Bergman ainda dirigiu e escreveu filmes para a televisão, e fez roteiros para o cinema. No âmbito pessoal, casou-se cinco vezes e teve sete filhos: com Else Fisher, 1943 a 1945 (filha Lena); com Ellen Lundström, 1945 a 1950, (dois filhos, Jan e Mats e duas filhas, Eva e Anna); com Gun Grut, 1951 (filho Ingmar); com Käbi Laretei, 1959 a 1965 (filho Daniel Sebastian); com Ingrid von Rosen, 1971. Teve ainda uma filha, Linn, com atriz norueguesa Liv Ullmann, em 1966. Ullmann atuou em dez filmes de Bergman, entre eles obras-primas como "Quando Duas Mulheres Pecam" (1966) e o já mencionado "Gritos e Sussurros" (1972).



JEAN-LUC GODARD

Jean-Luc Godard nasceu em Paris (1930). É um cineasta franco-suíço reconhecido por um cinema vanguardista e polêmico, que tomou como temas e assumiu como forma, de maneira ágil, original e quase sempre provocadora, os dilemas e perplexidades do século XX. Além disso, é também um dos principais nomes da Nouvelle Vague, movimento de cinema de vanguarga que sugiu na frança no final dos anos 50 e que tem, além de Godard, François Truffaut e Alan Resnais como nomes principais desse movimento. Nos anos seguintes, Truffaut se tornou desafeto de Godard que o acusou de se render ao sistema hollywoodiano de fazer filmes. Godard passou a infância e juventude na Suíça e depois estudou etnologia na Sorbonne. A partir de 1952 colaborou na revista Cahiers du Cinéma e, depois de vários curta-metragens, fez em 1959 seu primeiro filme longo, À bout de souffle (Acossado), em que adotou inovações narrativas e filmou com a câmera na mão, rompendo uma regra até então inviolável. Esse filme foi um dos primeiros da Nouvelle Vague, movimento que se propunha renovar a cinematografia francesa e revalorizava a direção, reabilitando o filme dito de autor. Os filmes seguintes confirmaram Godard como um dos mais inventivos diretores da Nouvelle Vague: Vivre sa vie (1962; Viver a vida), Bande à part (1964), Alphaville (1965), Pierrot le fou (1965; O demônio das 11 horas), Deux ou trois choses que je sais d'elle (1966; Duas ou três coisas que eu sei dela), La Chinoise (1967; A chinesa) e Week-end (1968; Week-end à francesa). O cinema de Godard nessa fase caracteriza-se pela mobilidade da câmera, pelos demorados planos-seqüências, pela montagem descontínua, pela improvisação e pela tentativa de carregar cada imagem com valores e informações contraditórios. Após o movimento estudantil de maio de 1968, Godard criou o grupo de cinema Dziga Vertov — assim chamado em homenagem a um cineasta russo de vanguarda — e voltou-se para o cinema político. Pravda (1969) trata da invasão soviética da Tchecoslováquia; Le vent d'Est (1969; Vento do Oriente), com roteiro do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, desmistifica o western e Jusqu'à la victoire (1970; Até a vitória) enfatiza a guerrilha palestina. Mais uma vez, Godard procurou inovar a estética cinematográfica com Passion (1982), reflexão sobre a pintura. Os filmes seguintes, como Prénom: Carmen (1983) e Je vous salue Marie (1984), provocaram polêmica e o último deles, irreverente em relação aos valores cristãos, esteve proibido no Brasil e em outros países. Sua filmografia é extença e Godard filma do cinema e do vídeo, seu trabalho mais recente é "Filme Socialismo" de 2010.



JIM JARMUSCH

É conhecido como o cineasta americano independente (palavra que ele mesmo odeia) dos anos 80 que deu voz às pessoas insignificantes e excluídas da sociedade, ou mesmo aquelas que são simplesmente estranhas e fora do conceito padrão, como ele mesmo. Cult é uma definição que persegue todos os seus trabalhos, desde a sua obra-prima “Estranhos no Paraíso” até o mais recente “Flores Partidas”. Nascido em Akron, Ohio, em 22/02/53, Jarmusch fixou residência em Nova York, onde foi aluno do grande cineasta Nicholay Ray, um de seus incentivadores, na famosa New York Film School. Seus estudos não foram até o fim, pois na sua urgência de filmar algo, logo abandonou os mesmos utilizando o dinheiro de sua bolsa para custear seu primeiro filme, Permanent Vacation (1980). A princípio, o filme não foi bem recebido por seus professores, com exceção de Ray, que o ajudou. Filme de baixíssimo orçamento mas cheio de criatividade, Permanent Vacation abriu os olhos da crítica para esse talento promissor. Seu filme seguinte, Estranhos no Paraíso (1982), é considerado por muito sua obra-prima e definitivamente colocou Jarmusch como um nome a ser respeitado. Aqui já se percebe os temas principais que irão pontuar toda a sua carreira daí em diante: longos planos reflexivos, personagens desencontrados, a decadência da cultura americana, a comunicação entre culturas diferentes e principalmente a falta da mesma. Jim Jarmusch formou no cinema uma das parcerias musicais mais criativas de sua história com Tom Waits, responsável pelas trilhas e canções dos seus melhores filmes. Jarmusch/Waits formam uma união perfeita, incorporando ideias quanto à ambientação e estética como ninguém. É só escutar aquela sua voz rasgada e rouca e imediatamente podemos nos transportar ao universo onírico de Jarmusch. É importante também lembrar a parceria de Jarmusch com o músico John Lurie, que também atuou em alguns de seus filmes, além de compor as trilhas. Falando em parcerias, outra que Jarmusch não abre mão é a do seu fotógrafo, o holandês Robby Müller, que consegue criar todo aquele clima etéreo e frio que seus filmes costumam pedir. Aliás, o cinema de Jim Jarmusch tem esse feeling todo europeu, mas que fala de coisas americanas e expõe uma realidade que não é a vendida pelo sonho americano. Daí a ele ser muito mais reconhecido pelos europeus do que por seus “compatriotas”. Todos os seus filmes possuem cenas memoráveis, como o hilário diálogo de Roberto Benigni com o taxista em Uma Noite Sobre a Terra (1991) – seu filme mais bem sucedido financeiramente. O mesmo Benigni em Down By Law (1983), como o forasteiro italiano tentando entender as palavras em inglês, com seus amigos presidiários Tom Waits e John Laurie pouco ajudando, oferece momentos impagáveis. Quem se esquece da cena do sorvete? A dinâmica de seus personagens oferece uma abordagem honesta, comovente e a mais despojada e natural possível. E sempre em lugares decadentes onde quase ninguém olha ou dá importância. O método de trabalho de Jarmusch é melhor definido por ele mesmo: “Eu me sinto melhor quando estou filmando. Filmar é como sexo. Escrever o roteiro é como a sedução, então a filmagem em si é o sexo, pois você está fazendo o filme com outras pessoas. A edição é como estar grávido, então você dá a luz e eles levam o seu bebê embora".



KRZYSZTOF KIESLOWSKI (1941-1996)

Cineasta capaz de desenvolver gramáticas visuais interessantes e únicas em filmes que transmitem estados de espírito como poucos, e isso por meio de imagem e som antes de se valer da palavra. Nascido em Varsóvia, Polônia, em 27 de junho de 1941, Kieslowski firmou-se primeiro como documentarista de talento. Seu primeiro longa-metragem de ficção foi A Cicatriz (Blizna, 1976). A consagração de Kieslowski como diretor de filmes de ficção viria nos anos 80 com a série de TV Decálogo, co-escrita por aquele que seria seu parceiro até o fim da carreira: Krzysztof Piesiewicz. Inspirada nos dez mandamentos, é onde Kieslowski alia sua experiência de documentarista a uma metafísica muito particular. Nesses filmes, ele não se limita a ilustrar os mandamentos, mas freqüentemente foge da interpretação convencional dos mesmos, inundando as histórias de ceticismo e ironia. A Dupla Vida de Véronique (La Doublé Vie de Véronique, 1991), filme seguinte de Kieslowski, é possivelmente o seu trabalho mais abertamente metafísico, um fascinante estudo da ambigüidade intrínseca à natureza humana. Duas jovens, uma polonesa e outra francesa (ambas interpretadas por Irène Jacob), são praticamente idênticas, física e emocionalmente, embora jamais venham a se conhecer. No enredo, é como se uma fosse o duplo da outra. Kieslowski procede, então, um estudo de duas personalidades "gêmeas" em, claro, duas culturas distintas, num filme labiríntico e lindamente obscuro. A Véronique, seguiu-se a célebre "trilogia das cores", inspirada pelas cores e ideais franceses (azul, branco e vermelho; liberdade, igualdade e fraternidade). A Liberdade é Azul, o primeiro da trilogia, participamos do torpor criativo de uma artista enquanto a mesma passa por dor insuportável. A cor azul, no caso, é música e vice-versa. Tudo diretamente da cabeça da personagem para a nossa. Já A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc, 1993) é o mais "polonês" da trilogia, e também o mais sardônico. O filme narra a vingança de um cabeleireiro sexualmente impotente contra sua mulher (Julie Delpy), por quem fora publicamente humilhado. O modo como se vinga é o paroxismo do masoquismo e da auto-flagelação. O último capítulo da trilogia e derradeiro trabalho de Kieslowski, A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994), é um milagre cinematográfico onde praticamente todos os temas explorados pelo cineasta ao longo de sua carreira comparecem com peso. Filme repleto de pequenas e grandes epifanias, é algo tão pleno e definitivo que só mesmo um cineasta decidido a abandonar o cinema (como Kieslowski anunciou após este filme) poderia perpetrar. O voyeurismo, explícito na figura de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que ouve conversas telefônicas dos vizinhos, traz novamente a contradição sobre viver a vida de outrem no lugar da nossa. Elementos como, os objetos em cena, o silencio, as elipses, a musica - onde uma nota isolada tem a consistência de uma lágrima, a dúvida e o acaso confluem para o todo nos filmes de Kieslowski. Tocando fundo nos nossos medos e frustrações dessa forma, seus filmes são demonstrações de uma sensível e complexa personalidade.O estilo fragmentado de Kieslowski, que está expresso nos saltos narrativo-temporais, sempre seguiu antes o estado da alma de seus personagens que um modelo narrativo convencional. Sua originalidade está não apenas em seu ceticismo e na visão de mundo que passava do paroxismo do pessimismo para um rascunho de otimismo, um otimismo atingido por via de sua própria e sistemática negação, mas também na maneira inteiramente nova com que trabalhou a imagem, o som e seus significados mais urgentes e imediatos. Kieslowski contava suas histórias sobretudo a partir do que mostrava. O verbo só surgia quando estritamente necessário ou alusivo. Ele morreu em 13 de março de 1996, vitimado por um ataque cardíaco, pouco tempo depois de ter anunciado que voltaria a filmar. FILMOGRAFIA: A Cicatriz (1976), O Decálogo (série de 1988), Não Amarás (episódio do Decálogo transformado em longa, 1988), Não Matarás (episódio do Decálogo transformado em longa, 1988), A Dupla Vida de Veronique (1991), A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1993), A fraternidade é Vermelha (1994).



LUIS BUÑUEL (1900-1983)

Nasceu em Calanda a 22 de fevereiro de 1900. Seus pais, ricos fazendeiros, lhe proporcionam uma vida muito distanciada da realidade espanhola: estudos de música, verões em São Sebastião e Calanda. Estudou em Zaragoza em São Salvador e fez seus estudos universitários em Madri, na Residência dos Estudantes. Ali teve a oportunidade de embeber-se das correntes culturais e renovadoras do momento (o Jazz, o Darwinismo, o Comunismo...) e de conhecer Dali e Lorca. Perde a fé e adota uma atitude muito contestadora. Licencia-se em Filosofia e letras ainda que seu objetivo fosse escrever poesia. Muda-se para Paris, onde arranja diversos trabalhos relacionados ao cinema, incluindo um emprego como assistente de Jean Epstein. Interessado pela obra de André Breton e o movimento surrealista, o incorpora no cinema ao realizar sua obra-prima, "Um cão andaluz" (1928), em colaboração com o amigo Salvador Dalí. Em Paris também conhece sua mulher, a ginasta Jeanne Rucar com quem viveu toda sua vida. Ao regressar à Espanha não dirige nenhum filme, a não ser um documentário: "Terra sem pão" (Las Hurdes Tierra sin Pan, 1932), a cuja produção se dedica. Ao estourar a guerra civil na espanhola, emigra aos Estados Unidos onde trabalha no Museu de Arte Moderna como dublador para a Warner Bros. A oportunidade de dirigir de novo chegou no México. E ali, com 46 anos começou a realizar filmes de maneira estável pela primeira vez. Filma clássicos como "Os esquecidos" (Los olvidados, 1950), que lhe rendeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. O prestígio destes filmes lhe deu reconhecimento mundial e no início da década de 1960 o General Franco o convidou a voltar à Espanha. Aí filmou Viridiana, um manifesto anti-católico que acabou por ser proibido na Espanha acusado de blasfêmia, apesar de ter ganhado a Palma de Ouro também no Festival de Cannes. A partir de então as viagens à Espanha e à França foram constantes. Realizou seus últimos filmes, os mais conhecidos, na França, em colaboração com o produtor Serge Silberman e o escritor Jean-Claude Carrière, entre eles "O discreto charme da burguesia" (Le charme discret de la bourgeoisie, 1972) e "O fantasma da liberdade" (Le fantôme de la liberté, 1974). No dia 29 de julho de 1983 falece na Cidade do México aos 83 anos de idade. Destaques: 1929 - Un chien andalou (Um cão andaluz), 1930 - L'âge d'or (A idade do ouro), 1962 - El ángel exterminador (O anjo exterminador), 1967 - Belle de jour (Bela da tarde), 1969 - La voie lactée (A Via Láctea), 1970 – Tristana, 1972 - Le charme discret de la bourgeoisie (O discreto charme da burguesia), 1974 - Le fantôme de la liberté (O fantasma da liberdade), 1977 - Cet obscur object du désit (Esse obscuro objeto do desejo).



MOHSEN MAKHMALBAF

Desde o fim da década de 80, a cinematografia do Irã vem recebendo destaque em importantes festivais e na imprensa especializada do mundo inteiro. Diversos elementos podem ser apontados como força-motriz desse inegável sucesso, como a curiosidade dos espectadores em relação à produção audiovisual de um país tão sofrido, castigado por tantos anos de conflito e pela intolerância de um governo autoritário, que inclusive censura e impõe cortes aos filmes; as características formais desses longas-metragens, que se aproximam de uma linguagem poética e contemplativa, atribuída a um certo tipo de filme alternativo ou independente, que agrada em cheio à platéia do chamado cinema de arte; e ainda o forte apoio que esses filmes tiveram de uma parte da comunidade cinematográfica européia, que resultou em um considerável impulso à sua visibilidade. Muito se discutiu sobre esses filmes e seus autores desde seus surgimentos. Além da utilização de atores não-profissionais representando problemas que enfrentam na vida real e da filmagem em locação. Talvez a característica mais onipresente no cinema iraniano contemporâneo que chega ao Ocidente seja o uso insistente da metalinguagem. Um grande fascínio pelo processo cinematográfico e pela sua interação com a realidade pontua a grande maioria desses filmes, tanto quanto um desejo de denúncia e transformação social. Os filmes de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Mohsen e Samira Makhmalbaf, entre outros que são os que nós temos mais acesso, enfrentam muitos problemas, principalmente em relação ao setor cultural do governo que insiste em censurar trechos dos filmes. Como eles se recusam a mutilar seus trabalhos, alguns desses filmes acabam sendo integralmente banidos no Irã - o making-off do filme "O Quadro Negro", de Samira Makhmalbaf, feito pelo irmão dela, Maysam, foi proibido porque Samira aparece usando uma gola considerada muito baixa. Em 1996, o consagrado diretor Mohsen Makhmalbaf - que ganhou notoriedade internacional realizando obras como "Salve o Cinema" e "Gabbeh" - finalizou o que se tornaria o seu filme preferido de sua obra, "Um Momento de Inocência". Para financiar essa produção, Makhmalbaf conseguiu um empréstimo, fazendo uma promessa de que, se o filme fosse impedido de ser exibido, ele venderia a própria casa para pagar a dívida. Foi exatamente o que aconteceu: o ministro da cultura da época exigiu que fossem feitos cortes no filme, caso contrário ele não poderia ter uma carreira comercial. Makhmalbaf reuniu sua família e perguntou se eles preferiam continuar sendo donos da casa e permitir que "Um Momento de Inocência" fosse mutilado e perdesse todo o significado e sentido, ou vender a casa e permitir que o filme permanecesse banido, porém intacto. A família foi unânime na decisão de vender a casa, elegendo a integridade artística como prioridade. Mais tarde, com o patrimônio recuperado graças à projeção internacional e sem qualquer apoio do governo do Irã, Mohsen montou uma escola de cinema em sua própria casa, formando uma turma de oito alunos composta por sua família e alguns amigos. As aulas duravam aproximadamente oito horas por dia. Os estudantes tinham diversas idades. A mais nova era sua filha Hana - irmã de Samira, também integrante da turma - que tinha oito anos quando o curso começou. O programa do curso consistia em focar em unicamente uma matéria por mês. Além de disciplinas ligadas a cinema, como Montagem, Roteiro, Fotografia, Mixagem de Som, Organização de Produção, Economia da Produção, Análise Fílmica e História do Cinema, eram ministradas introduções a outras artes, como pintura, poesia e música, além de outras atividades que geralmente não são diretamente associadas à realização cinematográfica. Entre elas, uma grande concentração em esportes (como ciclismo, natação e skate), porque Mohsen acredita que o cineasta precisa ser fisicamente forte. Assim, durante um mês, se andava de bicicleta durante oito horas por dia. Em outro, se passava oito horas por dia somente em frente à ilha de edição. E em outro, só se estudava música iraniana. Durante o curso, muitos filmes foram realizados. Os alunos se formaram em diversas especializações diferentes - três deles escolheram direção. Um deles foi Samira Makhmalbaf, que durante esse período rodou "A Maçã" e "O Quadro Negro," tornando-se, com o primeiro deles, a diretora mais jovem na história a ter um longa-metragem exibido em sessão de gala no Festival de Cannes - ela tinha então 18 anos. Com o segundo, ganhou o Prêmio do Júri na competição oficial do mesmo festival, dois anos depois. Samira rapidamente tornou-se uma estrela do mundo do cinema internacional, mostrando-se articulada e fotogênica nas inúmeras coletivas que participa. A madrasta de Samira e mulher de Mohsen, Marziyeh Meshkini, dirigiu um longa divido em três episódios chamado "O dia em que eu me tornei uma mulher", que foi premiado em vários festivais internacionais, entre eles o de Veneza e o de Chicago, e recebeu muitos elogios da imprensa internacional por tratar com sensibilidade da opressão que as mulheres sofrem no Irã. O filho do meio de Mohsen, Maysam, se especializou em Fotografia e Montagem. Ele montou um dos episódios do longa da madrasta e realizou o making-off do segundo filme de Samira. E finalmente a filha caçula, Hana Makhmalbaf, trabalhou como assistente em "A Maçã" e rodou o curta "O dia em que minha tia ficou doente". Peça-chave do cinema iraniano, Mohsen Makhmalbaf é hoje um homem sem endereço. Depois de deixar Teerã, em 2005, morar na França e na Inglaterra, o diretor prefere, por segurança, não mais dizer onde vive. Oposicionista do regime de Mahmoud Ahmadinejad, foi ameaçado, até a vida se tornar "inviável" para sua família. Destaques: Salve o Cinema/1995, Gabbeh/1996, O Silêncio/1998, A Caminho de Kandahar/2001.



PETER GREENAWAY

Inicialmente a família Greenaway vivia no País de Gales, onde nasceu em 1942, mas mudaram-se para Essex quando Peter tinha apenas três anos de idade. Quando Peter era criança, desejava tornar-se pintor. O interesse pela pintura foi muito importante para definir toda sua obra artística. Cada filme de Greenaway é composto visualmente usando-se parâmetros estéticos da pintura. O jovem Peter estudou cinema, com particular interesse por Bergman, pela Nouvelle Vague e cineastas como Godard e especialmente, Resnais. Em 1962 ele iniciou estudos no Walthamstow College of Art, onde fez amizade com um estudante de música chamado Ian Dury, (a quem mais tarde convidaria para fazer o filme The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover). Greenaway passou três anos em Walthamstow estudando para ser um pintor muralista e realizando seu primeiro filme , Morte do Sentimento, um ensaio sobre móveis de jardim de igrejas, filmado em quatro dos maiores cemitérios de Londres. Em 1965 Greenaway juntou-se ao Central Office of Information (COI), onde passou os próximos quinze anos trabalhando, inicialmente como editor de filmes e como diretor. Durante esse período ele construiu uma filmografia pessoal de filmes experimentais. Michael Nyman, autor da famosa trilha musical de O Piano compôs várias das trilhas musicais dos filmes de Greenaway. Os filmes de Peter Greenaway são notáveis pela presença de elementos de arte renascentista e barroca, uso de luz natural, compondo cada cena de seus filmes como se fossem pinturas. Greenaway também sempre se interessou por ópera tendo escrito dez libretos, ele mesmo, para uma série nomeada "A Morte do Compositor", enfocando dez compositores, de Anton Webern a John Lennon. Em 1980 Greenaway realizou The Falls seu primeiro longa-metragem. Foi nas décadas de 1980 e 1990 que Greenaway produziu a parcela mais famosa de sua filmografia como diretor.  O interesse por ópera e música levou Greenaway a produzir, em 2005, um espetáculo multimídia em colaboração com o maestro e compositor David Lang e o calígrafo Brody Neuenschwander Intitulado "Writing on Water". O espetáculo reuniu, ao vivo, a orquestra London Sinfonietta, o diretor, editando ao vivo imagens em uma mesa de vídeomaker, o compositor na regência da orquestra e o calígrafo, todos trabalhando ao vivo simutaneamente , com o produto audiovisual sendo lançado em um telão de grande dimensões que podia ser apreciado por uma vasta platéia. Em 2003, Greenaway iniciou o projeto 92 Tulse Luper, que incluiu uma apresentação ao vivo com sua mesa de plasma onde editava o video ao vivo, um site interativo e um filme cinematográfico. DESTAQUES: 1987-A barriga do arquiteto, 1988-Afogando em números, 1989-O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, 1991-Os livros de Próspero ou A última tempestade, 1993-O bebê santo de Mâcon, 1996-O livro de cabeceira, 1999-8 Mulheres e 1/2.



PIER PAOLO PASOLINI (1922-1975)

Era filho de Carlo Alberto Pasolini, militar de carreira, e de Susanna Colussi, professora primária, natural de Casarsa della Delizia (Friul), ao norte da Itália. Pier Paolo Pasolini era um artista solitário. Antes de ficar famoso como cineasta tinha sido poeta e novelista. Entre seus livros mais conhecidos estão Meninos da Vida, Uma Vida Violenta e Petróleo (livro). De porte atlético e estatura média, Pasolini usava óculos com lentes muito grossas, realizou estudos para filmes sobre a Índia, a Palestina e sobre a Oréstia, de Ésquilo, que pretendia filmar na África (Apontamento para uma Oréstia Africana). Era homossexual assumido. Seus filmes são muito conhecidos por criticarem a estrutura do governo italiano (na época fortemente ligado à igreja católica), que promovia a alienação e hábitos conservadores na sociedade. Além disso, seu cinema foi marcado por uma constante ligação com o arcaísmo prevalecente no homem moderno. Prova disso é a obra Teorema, em que um índividuo entra na vida de uma família e a desustrutura por inteiro (cada membro da familia representa uma instituição da sociedade). Dirigiu os filmes da Trilogia da Vida com conteúdo erótico e político: Il Decameron, I Raconti di Canterbury e Il fiore delle mille e una notte. Pasolini, em um determinado momento da sua vida, renegou esses filmes, afirmando que eles foram apropriados erroneamente pela insdústria cultural, que os classificava como pornográficos. Essa trilogia foi filmada na Etiópia, Índia, Irã, Nepal e Iêmen. Os filmes eram mal dublados em italiano. Pelo conteúdo pretensamente classificado como erótico, foi proibido nos Estados Unidos e só foi exibido na década de 80. No Brasil só foi exibido após a abertura política. Gostava de trabalhar com atores amadores e do povo. Foi assassinado em 1975, seu corpo tinha o rosto desfigurado e foi encontrado no hidro aeródromo de Ostia. Os motivos de seu assassinato continuam gerando polêmica até hoje, sendo associados a crime político ou um mero latrocínio. Um processo judicial concluiu que o cineasta foi assassinado por um garoto de programa, que teria o intuito de assaltá-lo. Tal versão, porém, não se sustenta mais. Existem estudos, filmes e programas de tv que põem por terra a versão acatada pela justiça italiana. No ano de 2005, Pino Pelosi declarou não ter sido ele o assassino de Pasolini, depois de ter cumprido pena como assassino confesso. DESTAQUES: Saló ou os Cento e Vinte Dias de Sodoma (1975), As Mil e Uma Noites (1974), Os Contos de Canterbury (1972), Decameron (1971), Pocilga (1969), Teorema (1968), Édipo Rei (1967), O Evangelho Segundo São Mateus (1964), Medea (1969).



STANLEY KUBRICK (1928-1999)

Preocupado com suas notas ruins no colégio, o pai de Santley Kubrick mandou-o à Califórnia para passar uma temporada com seu tio. De volta a Nova York, como o quadro acadêmico não tivesse mudado, seu pai iniciou-o no estudo do xadrez, que se tornou uma paixão para o jovem Kubrick. Aos 17 anos, Stanley Kubrick começou a trabalhar como fotógrafo para a revista "Look", viajando por toda a América nesta função. Acompanhou também nesta época, como ouvinte, diversos cursos na Universidade de Columbia. Em 1951 lançou seu primeiro documentário, "O Dia da Luta", produzido com seus próprios recursos ganhos através dos jogos xadrez, ao qual seguiram-se vários curta-metragens feitos por encomenda. Dois anos depois, Kubrick rodou seu primeiro longa-metragem, "Fogo e Desejo". Em seguida realizou "A Morte Passou por Perto" e "O Grande Golpe". A MGM, que notando as qualidades do jovem realizador, deu-lhe a possibilidade de realizar na Alemanha a adaptação de uma novela de guerra, Paths of Glory (1957), com Kirk Douglas, filme que marcou a emergência de Kubrick como um grande diretor. Essa saga passada na primeira guerra mundial é uma inteligente e aguçada crítica à prática militar. É também uma poderosa peça cinematográfica visto que Kubrick sintetiza as lições que aprendeu sobre composição e movimento de camera. A experiência foi tão positiva que Kirk Douglas o convidou mais tarde para substituir Anthonny Mann na realização de um épico que estava encalhado, Spartacus, seu primeiro e único trabalho contratado, típico épico dos anos 50 colorido em Technicolor. No filme que, ao contrário de todas as expectativas, Kubrick realizou á sua maneira, participaram atores como Laurence Olivier e Tony Curtis, além de Kirk Douglas. Um fato curioso, já testemunho de um artista sem concessões que almeja o controlo artístico total do seu trabalho, foi o de ter impedido Russell Metty, o diretor de fotografia, de trabalhar. Não gostando do trabalho do técnico, ele próprio foi o responsável pela fotografia. Este queixou-se sem resultado e, ironicamente, acabou por ganhar o Óscar de melhor fotografia sem ter feito nada durante a realização do filme. O projeto seguinte foi One-Eyed Jack (1961) com Marlon Brando, mas devido a incompatibilidades entre duas personalidades tão fortes, Kubrick abandonou o filme acabando Brando a realização do western. Desencantado com Hollywood e com a América, e depois de mais um casamento acabado, Kubrick muda-se para a Inglaterra. Passou a trabalhar lá desde então, desenvolvendo e produzindo apenas sete filmes em 30 anos, cada um meticulosamente trabalhado e cada um notadamente diferente dos outros. O seu primeiro filme no outro lado do Atlântico foi o famoso e controverso Lolita (1962), uma adaptação do romance de Vladimir Nabokov sobre o romance de um homem de meia idade com uma jovem de apenas 12 anos. Embora Kubrick tenha se queixado da censura tê-lo impedido de explorar a estória em maiores detalhes (dois anos foram adicionados a idade real de Lolita), o filme é visto hoje como um exemplo extraordinário de comédia mesclada com drama e romance. Dr. Estranho Amor (1964), o seu filme seguinte, foi uma comédia negra sobre a guerra fria em que Peter Sellers tinha três papéis diferentes. Aquilo que devia ser originalmente um drama, baseado no livro Red Alert de Peter George, foi convertido numa hilariante comédia sobre o poder nuclear, porque Kubrick achava que o livro tinha muitas ideias que não podiam ser levadas a sério. O filme, apesar da sua originalidade, foi um grande sucesso tanto de público como crítico. Os sucessos de Lolita e Dr.. Strangelove Or: How I Learned To Stop Worrying and Love the Bomb, junto com seu trabalho em Spartacus proporcionou a Kubrick a liberdade de escolher seus próprios temas e, mais importante, de exercer total controle sobre a produção dos filmes, uma liberdade rara para qualquer cineasta. Em 1965 Kubrick começou a produção daquele que é considerado por muitos o melhor filme de sempre, 2001: Odisseia no Espaço. Inspirado por um conto de Arthur C. Clarke, A Sentinela, este filme de 1968 é uma reflexão complexa sobre o pendor do homem para a violência. Tomando cinco anos de filmagem, o filme redefiniu as fronteiras do gênero e estabeleceu convenções visuais, metáforas e efeitos especiais que permanecem até hoje padrões para indústria cinematográfica. Uma hipnose visual bem como ousadamente narrado, 2001 fez de Kubrick um herói cultural. Apesar das confusas críticas na época de seu lançamento, provou ter sido influência estilística para diversos filmes lançados nos últimos 25 anos. O seu trabalho seguinte, Laranja Mecânica, baseado no ensaio satírico de Anthony Burgess do mesmo nome, é uma meditação sobre crime e castigo. Apesar de extremamente violento, até lhe foi atribuído um X nos Estados Unidos, depois retirado, o filme teve bastante sucesso sendo até nomeado para vários óscares, também esteve proibido no Brasil e depois foi liberado com as famosas "bolinhas pretas", que perseguiam as "partes intímas" dos atores enquanto eles se movimentavam na tela. Quem viu nunca esquecerá. "Laranja Mecânica" é um estudo sobre a amoralidade do ser humano, que não consegue administrar seus instintos frente a uma civilização igualmente incapaz de administrar suas contradições sociais. O filme é muito violento e tem uma das melhores trilhas sonoras da história do cinema. Aliás, Kubrick sempre demonstrou uma ousadia imensa na confecção do som de seus filmes, jamais se permitindo a solução fácil da música incidental que automaticamente sublinha o contexto dramático de cada cena. Kubrick, assim como brinca com a imagem, brinca com o som. Em 1975 adaptou uma novela de W. Thackery ao grande ecran, Barry Lyndon. O filme relatava a ascensão e queda de um irlandês na Inglaterra do século XVII. O filme foi bem recebido pelo público, mas não agradou à crítica em geral. No início dos anos oitenta experimenta o filme de terror com The Shining, adaptação da obra homónima de Stephen King. King não gostou do que Kubrick fez com a sua história e ele próprio a adaptou ao cinema mais tarde. Enquanto o filme de Kubrick é uma obra prima do cinema de terror, já ninguém se lembra do filme produzido por King. Nesta altura, Kubrick já não se preocupa com o tempo. Entre The Shining e o seu filme seguinte passam sete anos. Só em 1987 surge a sua nova obra, Nascido para Matar, sobre a guerra do Vietnam, uma das obras cinematográficas fundamentais sobre o conflito do sudoeste asiático. Novo êxito crítico e comercial. Kubrick morreu, em Londres, no dia 07 de março de 1999, deixando pronto De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman, mais um obra ousada e impecável que traz a sua genial assinatura.



THEO ANGELOPOULOS (1933-2012)

Aos 70 anos, Angelopoulos é o mestre das tomadas longas, das seqüências que cruzam o tempo e de um aguardar eterno do retorno do outro. Compondo em cada filme a espera de uma Penélope por um Ulisses que nunca volta, o diretor tem seu olhar voltado para o exílio interno. Sem crer na existência de passado, presente e futuro como categorias distintas, seus filmes transitam pela história, tomando a mitologia grega como ponto de partida. Porém, a Grécia de Angelopoulos não é a Grécia de ensolarado verão e de ilhas paradisíacas que atrai milhões de turistas do mundo inteiro. A Grécia de Angelopoulos é outra. É a Grécia do norte, de paisagens invernais, composta pela chuva, pela neve e pela neblina. É nessa região que estão situadas as fronteiras com a Albânia, a Macedônia, a Bulgária e a Turquia, local dos refugiados presentes em vários de seus filmes. É onde estão, partem ou chegam, todos os seus personagens. Seus cenários refletem o estado de ser desses seres. Figuras que não podem ser vistas como indivíduos, mas como contornos de um tempo, de uma época. À sombra de Homero, Angelopoulos continua a fazer jus ao que disse em uma entrevista concedida há cinco anos atrás: “Filmes que valorizam o espectador são recheados de questões, a maioria delas sem resposta. O verdadeiro desenrolar de um filme está no encontro de dois olhares: o do diretor e o do espectador. Sem esse encontro, o filme não pode existir, é apenas celulóide”. O cinema de Angelopoulos é um cinema singular, único na história desta arte. Não se filia a nenhuma escola, ou movimento, assim como não segue nenhuma tendência imposta por modismos. Tem um certo parentesco com o cinema de Andrei Tarkovsky, pois ambos refletem sobre os problemas que afligem o homem contemporâneo, e os dois utilizam os planos de longa duração na narrativa de seus filmes. Mas, enquanto o cinema de Tarkovsky é voltado para uma contemplação mística dos elementos da natureza (a terra, o fogo, o vento, a água) e uma abordagem filosófica da natureza humana, o cinema de Angelopoulos é mais centrado na história e na cultura da Grécia e nos problemas do homem no contexto político da atualidade. Como a viagem é o tema mais recorrente na obra de Angelopoulos, seja o retorno de um imigrante ou um exilado a sua terra natal, a viagem por acontecimentos políticos da história, ou a viagem de uma pessoa em busca do seu passado para encontrar a si mesma no presente, as locações que aparecem são aquelas que lembram o movimento: estações ferroviárias, trens, estradas, ônibus, caminhões, mares, portos, navios, rios e bares de beira de estrada. Assim como é recorrente a presença da neve, da chuva e da neblina, pois todos os seus filmes se passam no inverno, estação que reflete o sentimento de melancolia presente em sua obra. Angelopoulos é dono de um inconfundível estilo de filmar. O primeiro elemento que chama a atenção no seu estilo é que todos os seus filmes se compõem de planos longos e planos-sequência que dão um ritmo acentuadamente lento à narrativa. A título de exemplo, enquanto no cinema clássico americano um filme de 90 minutos é composto, em média, por mais de 500 planos, “Paisagem na Neblina” tem 88 planos em 120 minutos, e “Um Olhar a Cada Dia” 78 planos para quase três horas de filme. Esse ritmo lento da narrativa, através de longos planos, dilata o espaço temporal da cena, imprime a característica de um olhar contemplativo, e permite ao espectador a escolha de fixar-se nos detalhes que mais lhe chamem a atenção. Na rigorosa composição de imagem, nada é filmado por acaso. Os cenários são criteriosamente escolhidos e trabalhados e existe um rigor geométrico na distribuição de personagens, figurantes e objetos em cena. O cinema de Angelopoulos é o registro do inquietante pensamento de um artista voltado para os cruciais problemas humanos do nosso tempo. Sua extraordinária obra é uma espécie de sinfonia de imagens alegóricas de transcendental poesia. Mas, enquanto a estrutura da sinfonia na música se divide em movimentos diferentes como allegro, adágio, scherzo, etc., sua sinfonia é formada por um adágio longamente desenvolvido. Angelopoulos tem, entre críticos, estudiosos e cinéfilos, admiradores que se espalham por todos os lugares onde seus filmes tiveram o privilégio de ser exibidos. É reconhecido como um dos grandes artistas do nosso tempo. DESTAQUES: (1986)“O melissokomos” (“O Apicultor”), (1988)“Topio stin omichli” (“Paisagem na Neblina”), (1991) “To meteoro vima tou pelargou” (“O Passo Suspenso da Cegonha”), (1995) “Um Olhar a Cada Dia” (“To vlemma tou Odyssea”), (1998)“A Eternidade e um Dia” (“Mia eoniotita ke mia mera”), (2005) o Vale dos Lamentos.



WERNER HERZOG

Nasceu em Munique, aos 5 de setembro de 1942. É um dos maiores representantes do novo cinema alemão, movimento que surgiu nos anos 70. Embora seja mais conhecido por seus filmes de ficção, ele é tido como um excelente documentarista e, ao longo de sua carreira, dividiu-se entre os dois gêneros. A maioria de seus documentários nunca passou no Brasil e, segundo a crítica européia, possuem um estilo pessoal e ares de ficção. Em contrapartida, muitos de seus filmes de ficção têm um pé no documentário. "Coração de Cristal", por exemplo, passa muito tempo na fábrica de vidro, e "Onde Sonham as Formigas Verdes" por vezes mais parece um documentário. É um autor completo, sendo responsável pelo roteiro, produção e realização da maioria de seus filmes. Ao mesmo tempo, é um símbolo do cinema aventureiro, capaz de tudo para concretizar seus sonhos. Vale desde usar uma câmera roubada até levar toda a equipe para um trecho desconhecido da floresta amazônica ("Aguirre" e "Fitzcarraldo"). Ou ainda, hipnotizar todos os atores ("Coração de Cristal"). Pode-se mostrar dois bons exemplos de sua personalidade amalucada. Herzog era muito amigo da respeitada crítica alemã Lotte Eisner, autora do belo ensaio "A Tela Demoníaca", entre outros. Essa veterana crítica apoiava veementemente o novo cinema alemão, que inicialmente não foi bem recebido pelos jornalistas. No início dos anos 80, ela ficou muito doente e Herzog prometeu que, se ela melhorasse, faria a pé o percurso entre Munique e Paris. Lotte realmente melhorou (mas morreu pouco tempo depois) e o diretor cumpriu a promessa, chegando a escrever o livro "Caminhando no Gelo", editado no Brasil, durante a longa caminhada, com reflexões sobre a vida. Em outro lance curioso, apostou com o então estudante americano de cinema Errol Morris que se ele, Errol, conseguisse realizar determinado filme, Herzog comeria os próprios sapatos. O resultado foi que o alemão perdeu a aposta e, como Carlitos em "Em Busca do Ouro", saboreou seu filé de sola. O fato ficou registrado no estranhíssimo documentário "Werner Herzog Eats his Shoes", dirigido por Les Blanks. O primeiro curta de Herzog, "Herakles" (1962), foi filmado quando ele estava em seu primeiro ano na Universidade de Munique. Detalhe: ele usou uma câmera roubada, mostrando que a regra do alemão, como se veria ao longo de sua carreira, é que vale tudo para fazer um filme, inclusive enfrentar a floresta amazônica durante meses com uma equipe à beira da loucura. Para entender melhor a obsessão do diretor, é fundamental assistir a um de seus documentários mais recentes, "Meu Melhor Inimigo", onde ele retrata sua relação com Klaus Kinski, amigo e parceiro nos filmes mais importantes. Nele, fica claro não apenas o talento visceral desse autor, como também sua boa dose de loucura. A cena em que Kinski quer abandonar as filmagens de "Aguirre, a Cólera dos Deuses", e Herzog ameaça pegar um rifle para detê-lo, é emblemática. Kinski merece um capítulo à parte. Nasceu em 1926, na cidade portuária alemã de Sopot, que hoje pertence à Polônia e mudou de nome para Gdansk, sendo mais famosa como o berço do sindicato Solidariedade. Ele chegou a lutar na 2ª Guerra Mundial e foi prisioneiro do exército britânico. Com o fim da guerra, começou a atuar no teatro. A seguir, foi para o cinema, na maioria das vezes interpretando vilões, nos anos 50 e 60. Seu estilo agressivo e passional chamou a atenção de Herzog, que a partir de 1972 o convidaria a atuar em seus filmes mais importantes. Curiosamente, ele escreveu uma biografia intitulada "All I Need Is Love", inédita no Brasil, onde critica Herzog, considerando-o um tirano. A crítica considera a biografia um tanto tresloucada. Em "Meu Melhor Inimigo", os dois falam sobre essa biografia e Kinski tira o corpo fora, afirmando que tais afirmações foram feitas apenas para o livro vender mais. Kinski morreu em 1991. Outro estranho “ator” chamado por Herzog para atuar em dois de seus grande filmes (O Enigma de Kaspar Hauser e Stroszeck) chama-se simplesmente Bruno S., um ex-interno de instituições, que ele conheceu em um documentário alemão e achou que cairia bem para o papel. Bruno teve uma vida problemática. Era filho de uma prostituta e apanhava muito da mãe, chegando a ter problemas auditivos. Aos três anos foi separado dela e enviado a reformatórios e instituições de tratamento de doentes mentais. Com todas as dificuldades, estudou música, tocando piano e acordeão, habilidades que usaria em "Strozeck". Ele só fez esses dois filmes, pois tinha enorme dificuldade em decorar suas falas. Apesar do papel de destaque que ocupa na história do cinema mundial, Herzog é um nome praticamente ignorado pelos estúdios, nos lançamentos de vídeo e DVD. Em vídeo, a maioria de seus filmes foi lançada há mais de 15 anos, existindo apenas em locadoras que se preocupam com a qualidade do acervo. É uma pena. Os filmes de Herzog são delirantes, visionários e imprevisíveis, lapidados por mãos que, por vezes, parecem pesadas, mas que na verdade, nadam de braçada contra a corrente da mesmice e da mediocridade. DESTAQUES: (1970)"Todos os Anões Nascem Pequenos", (1971)"Fata Morgana" e "Terra de Silêncio e Escuridão", (1972)"Aguirre, a Cólera dos Deuses", (1974) "O Enigma de Kaspar Hauser", (1976) "Coração de Cristal" ("Herz Aus Glas"), (1977) "Stroszeck", (1978) "Nosferatu, o Vampiro da Noite", (1978) "Woyzeck", (1981) "Fitzcarraldo", (1987) "Cobra Verde", (1993) "Os Sinos do Abismo", (1999) "Meu Melhor Inimigo", (2005) “O Homem Urso”.



WIM WENDERS

Nascido em 14 de agosto de 1945, Wilhelm Ernest Wenders, mais conhecido como Wim Wenders. É estranho imaginar o diretor como cinqüentão, da mesma maneira que é dificil pensar em um roqueiro aposentado. Esta imagem inquieta está diretamente ligada aos seus filmes, nos quais a vida tem sempre uma grande dose de questionamento. lsso fez dele o mais internacional dos cineastas do Novo Cinema Alemão, "pai" de personagens em constante crise existencial e de trajetória incerta. Antes de se dedicar ao cinema, Wenders, nascido em Düsseldorf, estudou filosofia e medicina na Universidade de Freiburg, também na Alemanha. Logo desistiu dos sofismas e laboratórios para investigar o ser humano através das películas, entrando para a Hochshule für Film und Fernsehen (Escola Superior de Cinema e Televisão), de Munique. Entre 1967 e 1970, conciliou o curso com viagens a Paris, onde estudou pintura. Desde criança, Wenders se interessa por outras culturas e vaga por vários países. Seu primeiro longa-metragem profissional foi O Medo do Goleiro Diante do Pênalti I Die Angst des Tormanns Beim Elfmetter (1971). O filme se baseia em novela de Peter Handke, amigo do diretor, que colaborou posteriormente nos filmes Movimento em Falso/Falsche Bewegung (1975) e Asas do Desejo/Wings of Desire (1988). Com Alice nas Cidades/Alice in den Staedten (1973), Wenders começa a se projetar e entra no mundo dos.road movies, com personagens que trocam de geografia procurando respostas para seus conflitos. Com O Amigo Americano/Der Americanische Freund (1977), adaptação de uma novela da escritora Patricia Highsmith, o cineasta ganha fama internacional. O filme é um dos mais significativos da trajetória do cineasta, mostrando a associação e o confronto entre um alemão e um americano. Em 1982, Wenders segue o inevitàvel caminho rumo a Hollywood e dirige Hammet, O Falcão Maltês/Hammet, para a produtora Zoetrope, do diretor Francis Ford Coppola. A experiência não é das mais satisfatórias para Wenders, que nas folgas rodou O Estado das Coisas/Der Stand der Dinge (1982), em Lisboa. Apesar de ter se tornado parte da indústria cinematogràfica, ele sempre procurou fazer um cinema de autor, como nos tempos da nouvelle vague, o que às vezes lhe valeu o rótulo de ingênuo. Com Paris, Texas (1984), ele fez seu trabalho mais popular e ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O filme é uma combinação de boas escolhas, a começar pelo elenco, que traz Nastassja Kinski em sua melhor forma. Em 1987, Wenders finalizou o poético Asas do Desejo, sobre anjos que observam a desordem afetiva e material dos habitantes de Berlim. No filme, Wenders derrubou não o muro que separou as duas Alemanhas, mas procurou uma espécie de língua comum para uma certa ordem celestial e o mundo terrestre. Depois, fez a continuação da história: Tão Longe, Tão Pertoyin Weiter Ferne, So Nah! (1993). Com Até o Rm do Mundoy Until The End of the World (1991), Wenders realizou um projeto de muitos anos, mas não foi bem recebido pela cfitica, partindo depois para O Céu de Lisboa/Lisbon Story (1995), quando escrevia o roteiro à noite, junto com a mulher, Donata, e rodava no dia seguinte. Feito em Portugal, o filme retoma o fascínio de Wenders por Lisboa e tem uma certa indefinição de proposta. Em seguida, junto com Michelangelo Antonioni, Wenders participou das filmagens de Além das Nuvens, mas diz que não se sente autor do filme. Retornou a Hollywood para fazer The End of Violence, que detona com o estilo explosivo de cineastas como Quentin Tarantino. Depois de uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário com o festivo Buena Vista Social Club, sucesso de público em toda parte, o diretor venceu em 2000 o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim com o estiloso 'O Hotel de Um Milhão de Dólares', que tem história, produção executiva e música de Bono, junto com o U2. Na capital alemã, Wenders é normalmente visto pelas ruas, andando de metrô, comendo uma tradicional "currywurst" ou nas idas e vindas dos aeroportos. Apesar de estar há quase 40 anos no mercado cinematográfico, Wenders procura se manter sempre atualizado. Em 2006, ele fundou em Berlim a produtora Neue Road Movies, que incentiva diretores jovens e inovadores. Seu mais recentre filme é chama-se Pina, produzido com a tecnologia 3D, sobre Pina Bausch, a coreógrafa do Tanztheater Wuppertal que morreu repentinamente em 2010.